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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Em menos de uma semana de maio, o mesmo tapete vermelho do Grande Salão do Povo, em Pequim, recebeu dois dos homens mais poderosos do planeta... e duas das visões mais antagônicas sobre como o mundo deveria funcionar.
No dia treze de maio, Donald Trump pousou na capital chinesa. Era a primeira vez que um presidente americano em exercício visitava a China em quase uma década, desde dois mil e dezessete. A coreografia foi caprichada. Xi Jinping recebeu o líder americano em Zhongnanhai, o complexo que fica ao lado da Cidade Proibida e abriga o coração do governo chinês, e o conduziu pessoalmente pelos jardins. Trump declarou ter fechado "acordos comerciais fantásticos" em agricultura, aviação e inteligência artificial. Xi falou em "visita histórica" e em uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva".
Quatro dias depois, no dia dezenove, foi a vez de Vladimir Putin desembarcar em Pequim. Cerimônias ao ar livre, partilha de chá, tratamento de "velho amigo". O líder russo passou dois dias com Xi e assinou cerca de quarenta documentos bilaterais, vinte e um deles na presença direta dos dois presidentes. O texto principal, batizado de "Declaração sobre o Desenvolvimento de um Mundo Multipolar e um Novo Tipo de Relações Internacionais", tem cento e trinta páginas e não economiza adjetivos para criticar os Estados Unidos.
A leitura mais óbvia seria dizer que a China escolheu um lado. Não é o que diplomatas e analistas estão lendo nas entrelinhas. Em análise publicada pela CNN Brasil, a comentarista Fernanda Magnotta resume o recado: Xi Jinping não precisava escolher entre Washington e Moscou... podia sentar-se com os dois. E era exatamente isso que queria mostrar ao mundo.
O primeiro é o ataque direto ao chamado Domo Dourado, projeto anunciado por Trump em maio de dois mil e vinte e cinco e orçado em cento e setenta e cinco bilhões de dólares. Inspirado no Domo de Ferro israelense, o sistema americano prevê sensores e interceptadores em terra, mar e, pela primeira vez na história militar dos Estados Unidos, no espaço. Pequim e Moscou denunciam a iniciativa como uma quebra do equilíbrio nuclear entre as potências. A lógica é simples. Se uma das partes acredita poder se defender de qualquer ataque vindo do adversário, a destruição mútua assegurada... aquela velha doutrina da Guerra Fria que sustentou décadas de paz nuclear... deixa de funcionar como freio. Quem se sente blindado, tende a atacar.
O segundo ponto é o silêncio que sucedeu o fim do Novo START. O tratado, que limitava arsenais nucleares estratégicos americanos e russos, expirou no dia cinco de fevereiro de dois mil e vinte e seis. Moscou propôs a extensão por mais um ano. Washington não respondeu. Pela primeira vez em décadas, as duas maiores potências nucleares do mundo ficam sem qualquer acordo formal regulando o tamanho de seus estoques. É um vácuo jurídico que muda a aritmética de qualquer crise futura.
O terceiro ponto é a tecnologia. China e Rússia anunciaram cooperação ampliada em inteligência artificial, semicondutores e tecnologia militar. O timing não é casual. Os Estados Unidos vêm apertando há anos as restrições à venda de chips avançados para empresas chinesas, tentando travar o desenvolvimento da inteligência artificial no país asiático. Pequim, em resposta, quer acelerar o desenvolvimento doméstico... agora com Moscou como sócia formal nesse esforço.
O quarto ponto é o que ficou de fora. O megagasoduto Força da Sibéria dois, capaz de transformar a Rússia no maior fornecedor de gás natural da China por décadas, voltou à mesa... mas não foi assinado. O obstáculo, dizem fontes próximas das negociações, é o preço. A China sabe que tem a faca e o queijo na mão... e está cobrando descontos que Moscou ainda não está disposta a aceitar.
É aqui que a leitura se complica. A relação Rússia-China não é uma aliança entre iguais. É o que a literatura diplomática chama de entente assimétrica. O comércio bilateral chegou a cerca de duzentos e vinte bilhões de dólares em dois mil e vinte e cinco. A China compra petróleo e gás russos com desconto, abriu canais financeiros alternativos às sanções ocidentais e oferece cobertura política sem precisar endossar formalmente a guerra na Ucrânia. Para a Rússia, isso é oxigênio. Para a China, é oportunidade. Pequim não age por solidariedade ideológica. Age porque cada concessão russa hoje compra dependência amanhã.
Trump, do seu lado, também não voltou de Pequim de mãos vazias... apenas com menos do que anunciou. Reportagens do New York Times, da BBC e da Reuters descreveram a viagem como "pompa sobre política", com pouco resultado concreto. O Ministério do Comércio chinês descreveu os acordos como "preliminares". As duas potências combinaram criar um conselho de investimentos e um conselho de comércio para negociar reduções tarifárias recíprocas. Há promessas em agricultura, aviação e inteligência artificial. Há também uma oferta de Xi para ajudar a "desbloquear" o Estreito de Ormuz, gargalo por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Detalhes concretos? Poucos.
E a guerra com o Irã? Ela atravessa toda essa cena, mesmo sem aparecer no centro do palco.
O conflito começou em vinte e oito de fevereiro de dois mil e vinte e seis, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar conjunta contra Teerã, batizada pelos americanos de Fúria Épica e pelos israelenses de Leão Rugidor. Foi a maior projeção de força americana no Oriente Médio desde a invasão do Iraque, em dois mil e três. A guerra direta durou doze dias antes do primeiro cessar-fogo. Desde então, as hostilidades cessaram, mas o acordo é frágil. Em vinte e três de maio, menos de quarenta e oito horas antes do encontro Putin-Xi, o Financial Times revelou que mediadores estavam próximos de prorrogar o cessar-fogo por mais sessenta dias. O novo acordo prevê a reabertura gradual do Estreito de Ormuz, a diluição ou transferência do estoque de urânio enriquecido iraniano e o alívio de parte das sanções americanas.
Durante o encontro em Pequim, Xi Jinping defendeu publicamente um cessar-fogo duradouro com Teerã. A China é hoje a maior compradora de petróleo iraniano. Cada míssil disparado sobre Ormuz mexe diretamente com o preço da gasolina no posto chinês. A diplomacia, neste caso, é também contabilidade.
O que sobra dessa semana, então, é uma imagem inédita do mapa de poder em dois mil e vinte e seis.
Trump precisa de um acordo comercial para reanimar a economia americana e levar para casa uma vitória diplomática. Putin precisa de tudo... gás vendido, sanções aliviadas, alguma forma de saída política para a Ucrânia. Xi Jinping não precisa de nada com urgência. Ele recebeu dois adversários na mesma mesa, deu um abraço educado em um e um abraço caloroso no outro... e voltou para o gabinete sabendo que, qualquer que seja a próxima jogada, o tabuleiro passa por ele.
A China não anunciou nenhuma nova doutrina. Não precisava. A doutrina é o próprio calendário... duas visitas, uma semana, um único anfitrião.
Acompanhe três sinais nos próximos meses. O primeiro é o gasoduto Força da Sibéria dois. Se ele for assinado, é porque Moscou cedeu no preço, o que confirmaria a assimetria crescente da relação. Se continuar travado, é porque a Rússia ainda tem alguma cartada para barganhar.
O segundo é o cronograma do Domo Dourado. Sem o Novo START em vigor e com China e Rússia se coordenando em tecnologia militar, qualquer aceleração do projeto americano tende a provocar resposta nuclear simétrica das duas partes. Vale ler com atenção as próximas declarações do Pentágono sobre testes de interceptadores espaciais.
O terceiro é o cessar-fogo com o Irã. A prorrogação de sessenta dias é uma janela, não um acordo. Se o Estreito de Ormuz for fechado de novo, o petróleo dispara, a inflação volta a apertar e o cálculo geopolítico de todo mundo... inclusive o da China... muda em questão de horas.
Em resumo: Pequim virou anfitriã do século vinte e um. Quem quiser entender para onde vai o mundo nos próximos anos precisa começar olhando para a agenda do Xi Jinping.
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